Pub Date : 1900-01-01DOI: 10.51359/2526-3781.2018.239139
Ribamar José de Oliveira Júnior
Com peito branco e cabeça vermelha, ele mede aproximadamente 14 centímetros e meio. Nos galhos da Chapada do Araripe, região Nordeste do Brasil, a espécie também conhecida como lavadeira-da-mata, apresenta um dimorfismo sexual no que diz respeitos a plumagem. O Soldadinho do Araripe, mais vistoso do que a fêmea, possui um elmo na cabeça que o nomeou dessa forma. Ela possui um penacho mais reduzido. Distante de estabelecer uma relação entre misoginia e natureza, a materialidade sexual posta em uma primeira ordem entre o macho e a fêmea, acaba por condicionar duas verdades sobre os corpos: — tidos aqui tamanho de menos de um palmo — é obrigatório que o macho aja como macho e a fêmea aja como fêmea. Coube a espécie, encontrada apenas nas cidades de Barbalha, Araripe, Crato e Missão Velha, no Ceará, ser um dos referenciais do território da região do Cariri. Os municípios citados estão localizados na região metropolitana do Cariri, formada por nove municípios, surgida a partir da conurbação entre os municípios de Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha. É nesse território em que o pássaro canta que brinca Tica. Durante um ano, de outubro de 2016 a outubro de 2017, conversei com a brincante Francisca da Silva do Reisado Santa Helena em Juazeiro do Norte. No período em que se iniciou a pesquisa, ela morava no bairro Mutirão, ao lado da sede do grupo e casa do Mestre Dedé, dono do boi — como assim chama quem conduz o Reisado — que carrega o legado do pai na cultura popular em homenagem a santa que o protegeu. Dentro do vestido branco que abre alas no Reisado de Mestre Dedé Tica não sabe se as pessoas a veem como um homem ou como uma mulher. Desafiando o binarismo de gênero, a brincante, que ocupa o figural de Rainha na manifestação tradicional, reinventa a cultura popular na região do Cariri cearense por meio da performance artística. Tica nasceu de papo para cima. A parteira quando viu que o menino da falecida Tereza havia vindo ao mundo assim, anunciou que ele ia ser mais mulher do que homem. É a sina que a Rainha diz ter. Na poética do cotidiano, ela desvenda o rito religioso e subverte o corpo atravessado por preces, desejos e amor.
它有白色的胸部和红色的头,长约14厘米半。在巴西东北部的Chapada do Araripe的树枝上,这个物种也被称为lavadeira-da-mata,在羽毛方面表现出性别二型性。小Araripe士兵,比雌性更艳丽,头上有一个头盔,这就是它的名字。它有一个小的羽毛。遥远的厌女症之间的关系,而自然一分之一订单,性物质在男性和女性之间,最终决定从尸体上两个事实:——大小差距这一拳头是强制性的,男性表现为男性和女性表现为女性。这个物种,只在Barbalha, Araripe, Crato和missao Velha城市发现,ceara,是卡里里地区领土的参考之一。上述城市位于卡里里大都会区,由9个城市组成,由Juazeiro do Norte、Crato和Barbalha市之间的城市产生。正是在这片土地上,鸟儿唱歌,玩着Tica。在2016年10月至2017年10月的一年时间里,我与Juazeiro do Norte的Reisado Santa Helena的brincante Francisca da Silva进行了交谈。开始在研究期间,她就住在附近整个集团和总部旁边,房子主人的英美,牛的老板—这样叫什么名字谁开车Reisado—按父亲的遗产在圣诞老人的敬意,流行文化的保护。在梅斯特·迪蒂卡(Mestre dedetica)的白色连衣裙里,她不知道人们把她看成是男人还是女人。挑战自己的性别binarismo brincante,占领传统图女王的集会,而是巴西巴西地区的流行文化的艺术表现手段。蒂卡是在闲聊中诞生的。当助产士看到已故的特蕾莎的儿子以这种方式来到这个世界上时,她宣布他将是一个女人而不是男人。这是女王说的命运。在日常生活的诗学中,她揭示了宗教仪式,颠覆了充满祈祷、欲望和爱的身体。
{"title":"O CHÁ DE CEBOLA BRANCA E A RAINHA DO REISADO","authors":"Ribamar José de Oliveira Júnior","doi":"10.51359/2526-3781.2018.239139","DOIUrl":"https://doi.org/10.51359/2526-3781.2018.239139","url":null,"abstract":"Com peito branco e cabeça vermelha, ele mede aproximadamente 14 centímetros e meio. Nos galhos da Chapada do Araripe, região Nordeste do Brasil, a espécie também conhecida como lavadeira-da-mata, apresenta um dimorfismo sexual no que diz respeitos a plumagem. O Soldadinho do Araripe, mais vistoso do que a fêmea, possui um elmo na cabeça que o nomeou dessa forma. Ela possui um penacho mais reduzido. Distante de estabelecer uma relação entre misoginia e natureza, a materialidade sexual posta em uma primeira ordem entre o macho e a fêmea, acaba por condicionar duas verdades sobre os corpos: — tidos aqui tamanho de menos de um palmo — é obrigatório que o macho aja como macho e a fêmea aja como fêmea. Coube a espécie, encontrada apenas nas cidades de Barbalha, Araripe, Crato e Missão Velha, no Ceará, ser um dos referenciais do território da região do Cariri. Os municípios citados estão localizados na região metropolitana do Cariri, formada por nove municípios, surgida a partir da conurbação entre os municípios de Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha. É nesse território em que o pássaro canta que brinca Tica. Durante um ano, de outubro de 2016 a outubro de 2017, conversei com a brincante Francisca da Silva do Reisado Santa Helena em Juazeiro do Norte. No período em que se iniciou a pesquisa, ela morava no bairro Mutirão, ao lado da sede do grupo e casa do Mestre Dedé, dono do boi — como assim chama quem conduz o Reisado — que carrega o legado do pai na cultura popular em homenagem a santa que o protegeu. Dentro do vestido branco que abre alas no Reisado de Mestre Dedé Tica não sabe se as pessoas a veem como um homem ou como uma mulher. Desafiando o binarismo de gênero, a brincante, que ocupa o figural de Rainha na manifestação tradicional, reinventa a cultura popular na região do Cariri cearense por meio da performance artística. Tica nasceu de papo para cima. A parteira quando viu que o menino da falecida Tereza havia vindo ao mundo assim, anunciou que ele ia ser mais mulher do que homem. É a sina que a Rainha diz ter. Na poética do cotidiano, ela desvenda o rito religioso e subverte o corpo atravessado por preces, desejos e amor.","PeriodicalId":282576,"journal":{"name":"AntHropológicas Visual","volume":"57 1","pages":"0"},"PeriodicalIF":0.0,"publicationDate":"1900-01-01","publicationTypes":"Journal Article","fieldsOfStudy":null,"isOpenAccess":false,"openAccessPdf":"","citationCount":null,"resultStr":null,"platform":"Semanticscholar","paperid":"124744932","PeriodicalName":null,"FirstCategoryId":null,"ListUrlMain":null,"RegionNum":0,"RegionCategory":"","ArticlePicture":[],"TitleCN":null,"AbstractTextCN":null,"PMCID":"","EPubDate":null,"PubModel":null,"JCR":null,"JCRName":null,"Score":null,"Total":0}
Pub Date : 1900-01-01DOI: 10.51359/2526-3781.2018.239196
Elder Pereira Ribeiro
SINOPSE:Trata-se de uma série de fotografias que possuem o intuito de registrar variáveis lugares de Santo Amaro no Recôncavo Baiano. Estas imagens foram fotografadas na aula de campo do componente de Fotografia do CECULT-UFRB.Santo Amaro é uma cidade rica culturalmente, religiosamente e turisticamente, ainda se encontra em Santo Amaro os lugares de resquícios da cana de açucar e dos cafezais, também, é uma cidade com maior índice de terreiros de Candomblé da Bahia. Cidade de Caetano, Bethânia, Zilda Paim, Besouro Mangangá, Draº Elvira Queiroz, Teodoro Sampaio, Nicinha do Samba, entre outros.O artista plástico Emanuel Araújo, entre outras personalidades que tornaram famosa a terra morena do valente mestre capoeirista Besouro Cordão de Ouro e do mestre do maculelê, Popó. A poetisa Mabel Velloso, outra ilustre santamarense, define Santo Amaro como “pedacinho mais antigo do Recôncavo Baiano. Do seu massapê nasceram as canas mais doces e as mais doces estórias.O Rio Subaé é alvo das catástrofres ambientais, o caso da poluição do chumbo em todo parte da cidade. Tempos sombrios, onde muitos foram mortos e outros ainda conseguem trabalhar para manter o seu sustento, isto é, sobreviver.O Bembé do Mercado é o único candomblé de rua do mundo que é realizado na cidade Santo Amaro-BA. Vai e volta à memória nunca será apagada! SINOPSIS:It is a series of photographs that intend to record variable places of Santo Amaro in the Recôncavo Baiano. These images were photographed in the field lesson of the Photography component of CECULT-UFRB.Santo Amaro is a culturally, religiously and touristically rich city. Santo Amaro is still home to the remnants of sugar cane and coffee plantations. It is also a city with the highest number of candomblé terreiros in Bahia. City of Caetano, Bethânia, Zilda Paim, Besouro Mangangá, Draº Elvira Queiroz, Teodoro Sampaio, Nicinha do Samba, among others.The plastic artist Emanuel Araújo, among other personalities who made famous the brown land of the brave capoeirista master Beet Cordão de Ouro and the master of the maculelê, Popó. The poet Mabel Velloso, another illustrious Santamarine, defines Santo Amaro as "the oldest piece of the Recôncavo Baiano. From his massapé were born the sweetest reeds and the sweetest stories.The Subaé River is the target of environmental catastrophes, the case of lead pollution in all parts of the city. Dark times, where many were killed and others still manage to work to maintain their livelihood, that is, to survive.O Bembé do Mercado é o único candomblé de rua do mundo que é realizado na cidade Santo Amaro-BA. Vai e volta à memória nunca será apagada! Palabras-chave:santo amaro; cidade; cultura; comunidadeKey-words:holy amaro; City; culture; communit Ficha técnica:Autora:Elder Pereira RibeiroFotografias: Elder Pereira RibeiroDireção, Edição de Imagem e Texto: Elder Pereira Ribeiro Ficha técnica:Author:Elder Pereira RibeiroPhotos:Elder Pereira RibeiroDirection:Elder Pereira Ribeiro
{"title":"GUARDA-CHUVA ETNOGRÁFICO","authors":"Elder Pereira Ribeiro","doi":"10.51359/2526-3781.2018.239196","DOIUrl":"https://doi.org/10.51359/2526-3781.2018.239196","url":null,"abstract":"SINOPSE:Trata-se de uma série de fotografias que possuem o intuito de registrar variáveis lugares de Santo Amaro no Recôncavo Baiano. Estas imagens foram fotografadas na aula de campo do componente de Fotografia do CECULT-UFRB.Santo Amaro é uma cidade rica culturalmente, religiosamente e turisticamente, ainda se encontra em Santo Amaro os lugares de resquícios da cana de açucar e dos cafezais, também, é uma cidade com maior índice de terreiros de Candomblé da Bahia. Cidade de Caetano, Bethânia, Zilda Paim, Besouro Mangangá, Draº Elvira Queiroz, Teodoro Sampaio, Nicinha do Samba, entre outros.O artista plástico Emanuel Araújo, entre outras personalidades que tornaram famosa a terra morena do valente mestre capoeirista Besouro Cordão de Ouro e do mestre do maculelê, Popó. A poetisa Mabel Velloso, outra ilustre santamarense, define Santo Amaro como “pedacinho mais antigo do Recôncavo Baiano. Do seu massapê nasceram as canas mais doces e as mais doces estórias.O Rio Subaé é alvo das catástrofres ambientais, o caso da poluição do chumbo em todo parte da cidade. Tempos sombrios, onde muitos foram mortos e outros ainda conseguem trabalhar para manter o seu sustento, isto é, sobreviver.O Bembé do Mercado é o único candomblé de rua do mundo que é realizado na cidade Santo Amaro-BA. Vai e volta à memória nunca será apagada! SINOPSIS:It is a series of photographs that intend to record variable places of Santo Amaro in the Recôncavo Baiano. These images were photographed in the field lesson of the Photography component of CECULT-UFRB.Santo Amaro is a culturally, religiously and touristically rich city. Santo Amaro is still home to the remnants of sugar cane and coffee plantations. It is also a city with the highest number of candomblé terreiros in Bahia. City of Caetano, Bethânia, Zilda Paim, Besouro Mangangá, Draº Elvira Queiroz, Teodoro Sampaio, Nicinha do Samba, among others.The plastic artist Emanuel Araújo, among other personalities who made famous the brown land of the brave capoeirista master Beet Cordão de Ouro and the master of the maculelê, Popó. The poet Mabel Velloso, another illustrious Santamarine, defines Santo Amaro as \"the oldest piece of the Recôncavo Baiano. From his massapé were born the sweetest reeds and the sweetest stories.The Subaé River is the target of environmental catastrophes, the case of lead pollution in all parts of the city. Dark times, where many were killed and others still manage to work to maintain their livelihood, that is, to survive.O Bembé do Mercado é o único candomblé de rua do mundo que é realizado na cidade Santo Amaro-BA. Vai e volta à memória nunca será apagada! Palabras-chave:santo amaro; cidade; cultura; comunidadeKey-words:holy amaro; City; culture; communit Ficha técnica:Autora:Elder Pereira RibeiroFotografias: Elder Pereira RibeiroDireção, Edição de Imagem e Texto: Elder Pereira Ribeiro Ficha técnica:Author:Elder Pereira RibeiroPhotos:Elder Pereira RibeiroDirection:Elder Pereira Ribeiro ","PeriodicalId":282576,"journal":{"name":"AntHropológicas Visual","volume":"269 1","pages":"0"},"PeriodicalIF":0.0,"publicationDate":"1900-01-01","publicationTypes":"Journal Article","fieldsOfStudy":null,"isOpenAccess":false,"openAccessPdf":"","citationCount":null,"resultStr":null,"platform":"Semanticscholar","paperid":"123305076","PeriodicalName":null,"FirstCategoryId":null,"ListUrlMain":null,"RegionNum":0,"RegionCategory":"","ArticlePicture":[],"TitleCN":null,"AbstractTextCN":null,"PMCID":"","EPubDate":null,"PubModel":null,"JCR":null,"JCRName":null,"Score":null,"Total":0}
Pub Date : 1900-01-01DOI: 10.51359/2526-3781.2018.239337
Aline Lopes Rochedo, Fabrício Barreto
Joia de família não é sinônimo de joia. Essa coisa – que pode ou não ser feita com metais nobres e gemas – apenas recebe a alcunha “de família” em processos sociais, ou seja, ao se enredar em ancestrais e ser repassada como herança. Acompanhada de narrativas, converte-se em elos de experiências e trajetórias entre vivos, mortos e aqueles que nem nasceram. Crônicas e performances acompanham seus movimentos e nos permitem acessar práticas e emoções recebidas e legadas entre gerações.A alegoria que Fabricio Barreto (fotos) e Aline Lopes Rochedo (texto) compõem na narrativa imagética aqui apresentada emerge de uma etnografia sobre transmissão de joias de família, pesquisa que resultará na tese de Rochedo em 2020. Em termos teóricos, a autora parte de Ensaio sobre a dádiva, de Marcel Mauss, publicado em 1925 e que ainda hoje incita reflexões. Rochedo tenciona identificar práticas e dinâmicas envolvidas em repasses de joias de família, coisas às quais se atribuem valores para além do econômico. Intenta, ainda, compreender o que esses processos revelam sobre a vida coletiva, observando como sujeitos vivenciam histórias e instituições nas quais as relações existem, contemplando marcadores simbólicos de gênero e classe.Este ensaio é uma construção parcial de realidades expressas pela cenógrafa Andrea Mazza Terra, moradora de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Embora reúna na tese mais de 40 casos de repasses geracionais de joias de família, Rochedo destaca as prosas desta interlocutora pela riqueza de sua fala para narrar a família. A pesquisa se iniciou com entrevistas, conversas informais e observação realizadas na casa de Andrea, entre fevereiro e abril de 2018, quando ela discorreu sobre o bracelete da baronesa, joia de família que, inicialmente, fora presente de casamento do barão de Santa Tecla à futura esposa, Amélia, avó de sua bisavó.Rochedo reencontrou Andrea em maio de 2018, desta vez com Barreto, para fotografá-la interagindo com sua joia de família, e a experiência jogou novas luzes sobre possibilidades de dádiva. Mas o desfecho desse roteiro improvisado e imprevisível só foi possível graças a Raphael Scholl, amigo que apresentou Andrea à Rochedo e cuidou do figurino para as fotos. Barreto e Rochedo construíram a narrativa de imagens numa tentativa de misturar vozes e percepções na composição de uma experiência cênica protagonizada por Andrea com ajuda de Raphael e do estilista Maurício Guidotti.As fotos foram feitas em maio de 2018, no sobrado cansado e cravejado de vitrais Tiffany onde a interlocutora nasceu e reside. Neste palco tão familiar herdado dos avós maternos, Andrea compôs sua opereta imagética sobre o bracelete de ouro e diamantes forjado em Paris no século XIX. O adorno que testemunhou o esplendor e a decadência da economia do charque pelotense nos anos 1920 conecta Andrea a cinco gerações de mulheres, da baronesa de Santa Tecla até a avó, Nóris, de quem recebeu a dádiva. Também a mantém algemada ao passado da família. À crônica atu
{"title":"Dádiva em cena: uma opereta sobre joias de família","authors":"Aline Lopes Rochedo, Fabrício Barreto","doi":"10.51359/2526-3781.2018.239337","DOIUrl":"https://doi.org/10.51359/2526-3781.2018.239337","url":null,"abstract":"Joia de família não é sinônimo de joia. Essa coisa – que pode ou não ser feita com metais nobres e gemas – apenas recebe a alcunha “de família” em processos sociais, ou seja, ao se enredar em ancestrais e ser repassada como herança. Acompanhada de narrativas, converte-se em elos de experiências e trajetórias entre vivos, mortos e aqueles que nem nasceram. Crônicas e performances acompanham seus movimentos e nos permitem acessar práticas e emoções recebidas e legadas entre gerações.A alegoria que Fabricio Barreto (fotos) e Aline Lopes Rochedo (texto) compõem na narrativa imagética aqui apresentada emerge de uma etnografia sobre transmissão de joias de família, pesquisa que resultará na tese de Rochedo em 2020. Em termos teóricos, a autora parte de Ensaio sobre a dádiva, de Marcel Mauss, publicado em 1925 e que ainda hoje incita reflexões. Rochedo tenciona identificar práticas e dinâmicas envolvidas em repasses de joias de família, coisas às quais se atribuem valores para além do econômico. Intenta, ainda, compreender o que esses processos revelam sobre a vida coletiva, observando como sujeitos vivenciam histórias e instituições nas quais as relações existem, contemplando marcadores simbólicos de gênero e classe.Este ensaio é uma construção parcial de realidades expressas pela cenógrafa Andrea Mazza Terra, moradora de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Embora reúna na tese mais de 40 casos de repasses geracionais de joias de família, Rochedo destaca as prosas desta interlocutora pela riqueza de sua fala para narrar a família. A pesquisa se iniciou com entrevistas, conversas informais e observação realizadas na casa de Andrea, entre fevereiro e abril de 2018, quando ela discorreu sobre o bracelete da baronesa, joia de família que, inicialmente, fora presente de casamento do barão de Santa Tecla à futura esposa, Amélia, avó de sua bisavó.Rochedo reencontrou Andrea em maio de 2018, desta vez com Barreto, para fotografá-la interagindo com sua joia de família, e a experiência jogou novas luzes sobre possibilidades de dádiva. Mas o desfecho desse roteiro improvisado e imprevisível só foi possível graças a Raphael Scholl, amigo que apresentou Andrea à Rochedo e cuidou do figurino para as fotos. Barreto e Rochedo construíram a narrativa de imagens numa tentativa de misturar vozes e percepções na composição de uma experiência cênica protagonizada por Andrea com ajuda de Raphael e do estilista Maurício Guidotti.As fotos foram feitas em maio de 2018, no sobrado cansado e cravejado de vitrais Tiffany onde a interlocutora nasceu e reside. Neste palco tão familiar herdado dos avós maternos, Andrea compôs sua opereta imagética sobre o bracelete de ouro e diamantes forjado em Paris no século XIX. O adorno que testemunhou o esplendor e a decadência da economia do charque pelotense nos anos 1920 conecta Andrea a cinco gerações de mulheres, da baronesa de Santa Tecla até a avó, Nóris, de quem recebeu a dádiva. Também a mantém algemada ao passado da família. À crônica atu","PeriodicalId":282576,"journal":{"name":"AntHropológicas Visual","volume":"188 1","pages":"0"},"PeriodicalIF":0.0,"publicationDate":"1900-01-01","publicationTypes":"Journal Article","fieldsOfStudy":null,"isOpenAccess":false,"openAccessPdf":"","citationCount":null,"resultStr":null,"platform":"Semanticscholar","paperid":"122573600","PeriodicalName":null,"FirstCategoryId":null,"ListUrlMain":null,"RegionNum":0,"RegionCategory":"","ArticlePicture":[],"TitleCN":null,"AbstractTextCN":null,"PMCID":"","EPubDate":null,"PubModel":null,"JCR":null,"JCRName":null,"Score":null,"Total":0}
Pub Date : 1900-01-01DOI: 10.51359/2526-3781.2018.239152
Agustín Liarte Tiloca
SinopseEste ensaio pode ser contado como uma história. Numa fria tarde de primavera, um antropólogo, um fotógrafo e duas pessoas que tinham uma relação de dominação / submissão se encontraram em um apartamento no norte de Córdoba. O objetivo principal era organizar uma sessão fotográfica, onde o casal pudesse desdobrar parte das atividades que realizava na "intimidade". Enquanto o equipamento estava sendo arranjado e o tipo de imagens esperadas estava sendo discutido, bebemos alguns líquidos alcóolicos para aquecer. Também escolhemos algumas músicas para tocar em um computador, a fim de definir o momento. Como única palavra de ordem do casal, foi-lhes pedido que fizessem o que quisessem. Diante desse fato, naquela tarde, os diferentes propósitos e expectativas ali construídos foram entrelaçados. Por um lado, havia um ensaio fotográfico que deveria ser entregue como trabalho prático para uma disciplina, dentro da carreira de técnico de fotografia de uma instituição educacional local de artes aplicadas. Por outro lado, havia o desejo do casal de ter um conjunto de imagens para compartilhar em certas redes sociais, bem como parte de um jogo erótico baseado no prazer de observar o resultado de suas ações capturadas em fotografias. Finalmente, eu interlaço meu interesse em desenvolver uma pesquisa antropológica preocupada em investigar formas de sociabilidade entre praticantes de BDSM. Essas siglas correspondem a um conjunto de atividades sócio-eróticas que consistem em bondage ou ligaduras, jogos de dominação e submissão, e na ressemermantização sadomasoquista da dor. Foi assim que comecei a averiguar sobre as "marcas de prazer". Entendo por este termo os traços deixados na pele após alguma prática, como os sulcos vermelhos que indicavam que as unhas circulavam lá, os hematomas que serviam como indicativos de spanks ou golpes, e a subsidência na forma de linhas semicirculares deixadas pelos dentes após morder uma área carnuda. A discussão principal girou em torno de como estas marcas foram compreendidas pelos próprios praticantes. A partir de uma certa leitura, esses traços poderiam ser vistos como vestígios de um ato violento, numa relação linear estabelecida entre um golpe e a produção de desagrado. No entanto, como surgiu durante o trabalho de campo e nesta experiência particular, dentro de uma sociabilidade BDSM as marcas foram interpretadas como índices de prazer e marcadores de tempo de beleza. A qualidade efêmera foi registrada a partir de fotografias, enquanto expressões como "que belas marcas" indicavam que elas eram apreciadas como componentes decorativos do corpo. As cores e ondulações da pele mereciam ser lembradas de sua reprodutibilidade, pois mais cedo ou mais tarde elas se desvaneceriam com o tempo. O contato das peles implicava a união dos corpos, uma redução momentânea da aura simmeliana como espaço pessoal. No entanto, a pele serviu como uma tela onde não se tratava apenas de produzir uma marca, mas que o mesmo fora feito por u
这篇文章可以作为一个故事来讲述。一个寒冷的春天下午,一位人类学家、一位摄影师和两个有着支配/服从关系的人在cordoba北部的一间公寓里相遇。主要目标是组织一次摄影会议,在那里这对夫妇可以展开他们在“亲密”中进行的部分活动。在安排设备和讨论预期的图像类型的同时,我们喝了一些酒精液体来加热。我们还选择了一些歌曲在电脑上播放,以设置时间。作为这对夫妇唯一的口号,他们被要求做他们想做的事。面对这个事实,那天下午,不同的目的和期望交织在一起。一方面,在当地应用艺术教育机构的摄影技师职业生涯中,有一篇摄影文章应该作为一门学科的实践工作交付。另一方面,这对夫妇希望在某些社交网络上分享一组图片,以及一种色情游戏的一部分,这种游戏基于观察他们的行为结果的乐趣。最后,我将我的兴趣联系在一起,以发展一个人类学研究,关注调查BDSM从业者之间的社交形式。这些首字母缩写对应于一系列的社会色情活动,包括束缚或捆绑,统治和服从的游戏,以及痛苦的施虐受虐的再奴役。所以我开始研究“快乐标记”。通过这个术语,我理解了一些练习后在皮肤上留下的痕迹,比如红色的凹槽,表明指甲在那里循环,瘀伤,表明打屁股或打击,以及牙齿咬伤后留下的半圆形线条。主要的讨论围绕着从业者如何理解这些标记展开。从一定的解读来看,这些痕迹可以被视为暴力行为的痕迹,在政变和不满的产生之间建立了线性关系。然而,在野外工作和这种特殊的经验中,在BDSM社交中,标记被解释为快乐指数和美丽的时间标记。从照片中记录了短暂的质量,而像“多么美丽的标记”这样的表达表明,它们被视为身体的装饰组成部分。皮肤的颜色和起伏值得记住,因为它们的重现性,因为它们迟早会随着时间的推移而褪色。皮肤的接触意味着身体的结合,作为个人空间的simmelian光环的暂时减少。然而,皮肤就像一种织物,它不仅是一个品牌的生产,而且是由一个特定的人在相关各方共同同意的条件下制作的。在这些情况下,共识已经成为重新诠释品牌情色的关键因素。关键词bdsm -快乐-标记-共识快乐标记。一篇关于BDSM的照片人种学文章。这篇文章可以写成一个故事。在一个凉爽的春天下午,一名人类学家、一名摄影师和两个人在科尔多瓦北部的一间公寓里相遇,他们之间有着支配/服从的关系。主要目的是组织一个摄影会议,在那里这对夫妇可以展示他们在“亲密”中进行的一些活动。当团队被安排好并讨论预期会有什么样的图像时,他们喝了一些烈酒来取暖。我们还选择了一些歌曲在电脑上播放,以营造气氛。作为对这对夫妇唯一的指示,他们被要求做他们想做的事。这是一个非常重要的时刻,因为这是一个非常重要的时刻,因为这是一个非常重要的时刻,因为这是一个非常重要的时刻。一方面,在当地应用艺术教育机构的摄影技术范围内,有一篇摄影散文作为一门学科的实践作品提交。另一方面,这对夫妇渴望在特定的社交网络上分享一组图片,以及一种基于观察他们的行为结果的快乐的色情游戏的一部分。最后,我对发展一项人类学研究的兴趣交织在一起,该研究关注的是调查BDSM从业者之间的社交形式。这些首字母缩写对应于一系列的社会色情活动,包括束缚、支配和服从游戏,以及对痛苦的施虐受虐再体验。这就是我开始研究“快乐标记”的原因。 为什么这一用语后对皮肤的遗留痕迹某种惯例,如可能是红犁沟,表明在指甲,那边spanks作为擦伤性或打击,和遗留地下沉semicirculares线后牙齿咬carnosa区。主要的讨论围绕着从业者自己如何理解这些标记展开。从某种意义上说,这些痕迹可以被视为暴力行为的痕迹,在打击和产生不安之间建立了线性关系。然而,由于它是在野外工作和这种特殊的体验中产生的,在BDSM社交性中,标记被解释为快乐的指标和美丽的时间标记。从照片中记录了短暂的品质,而像“多么美丽的标记”这样的表达表明,它们被视为身体的装饰组成部分。皮肤的颜色和起伏是值得记住的,因为它们的重现性,因为它们迟早会随着时间的推移褪色。皮肤的接触意味着身体的结合,simmelian光环作为个人空间的短暂消逝。然而,皮肤被用作画布,它不仅仅是一个擦伤的问题,而是由一个特定的人在双方同意的条件下进行的。在这些情况下,共识成为重新诠释品牌情色的关键因素。关键词bdsm -快乐-品牌-共识数据表研究:agustin Liarte tiloc毕业于人类学和人类学博士学位,均来自cordoba国立大学哲学和人文学院。CONICET博士研究员,工作地点在人文研究所。目前,他是心理学院当代和拉丁美洲文化人类学主席的助理教授。他也是哲学和人文学院研究中心Gustavo blazquez和maria Gabriela Lugones指导的“主体性和当代主题”项目的研究员。摄影:Rolando martin escudero, cordoba省大学艺术与设计学院摄影高级技术员。她目前是Tarde Marika集体的成员。在他的作品中,突出了2018年Marika Summer的作品,这些照片在cordoba省大学Ernesto Farina房间的“记忆与性别”展览中展示,展览名为“100x100”。“科尔多瓦大学改革100年”,由马塞洛·努塞诺维奇(Marcelo Nusenovich)策划,并在科尔多瓦自治市的Manzana de las Luces举办“让我们谈谈性别”展览。同样在2018年,他参加了“FAD expo2018”展览,展示了关于语言和领土的思考系列。相机:佳能70照明:人造光和闪光
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