O problema epistemológico do critério de demarcação (entre o que é e o que não é doença mental), constitui um dos problemas mais centrais e mais fundamentais da Psicopatologia. Ao longo de um percurso acidentado e demorado de milénios de história documentada, foram-se sucedendo várias formas de conceptualizar a doença e a doença mental, desde a tradição sobrenatural até, no caso específico desta última, ao omnipresente manual DSM, que se veio a impor a nível mundial como a classificação oficial dos transtornos psiquiátricos. Todavia, nenhuma forma se revelou até agora verdadeiramente satisfatória para a discriminação e caracterização de tais transtornos. Nem sequer o manual DSM, afinal uma espécie de glossário construído sobre consensos validados estatisticamente, que no fundo traduz a liderança (ou mesmo o poder hegemónico) do pragmatismo norte-americano sobre a Psiquiatria e a Psicologia, e que parte de pressupostos discutíveis, em particular a assunção de que as diferentes entidades de diagnóstico que define possuem uma realidade subjacente natural e universal. É necessário prosseguir o caminho. Um caminho iniciado por Karl Jaspers, no que diz respeito à via compreensiva (e não apenas descritiva) dos fenómenos em causa. Um caminho que só fará sentido percorrer se se procurar conhecer melhor as realidades naturais que possam existir, quando existam, subjacentes aos transtornos psiquiátricos; procurando ao mesmo tempo reconhecer que partes das definições de tais transtornos são culturalmente definidas e procurando, ainda, articular as diferentes ordens de factores (naturais e sociais) que, juntas, formarão uma nova conceptualização e compreensão de doença e de doença mental. Isto é, procurando por um lado conhecer o funcionamento natural dos mecanismos psicológicos, tais como foram «programados» ou «desenhados» pela evolução da espécie humana; procurando conhecer igualmente as condições ambientais (sociais, culturais, etc.) que fazem disparar tais mecanismos, necessariamente contextuais, de forma disfuncional; e, por fim, incorporando tais conhecimentos nos valores culturais que vêm definindo, ao longo dos séculos e das civilizações, os comportamentos desviantes que se consideram ser doença mental. Tal conceptualização, evolucionista pela sua natureza, poderá vir a trazer enfim uma solução para o problema fundamental de definir critérios de demarcação (entre o que é e o que não é doença mental) que permitam, por sua vez, encontrar explicações adequadas e satisfatórias para a compreensão dos fenómenos psiquiátricos.
{"title":"Para uma conceptualização evolucionista de Saúde Mental","authors":"Pedro Urbano","doi":"10.14195/1647-8622_19_5","DOIUrl":"https://doi.org/10.14195/1647-8622_19_5","url":null,"abstract":"O problema epistemológico do critério de demarcação (entre o que é e o que não é doença mental), constitui um dos problemas mais centrais e mais fundamentais da Psicopatologia. Ao longo de um percurso acidentado e demorado de milénios de história documentada, foram-se sucedendo várias formas de conceptualizar a doença e a doença mental, desde a tradição sobrenatural até, no caso específico desta última, ao omnipresente manual DSM, que se veio a impor a nível mundial como a classificação oficial dos transtornos psiquiátricos. Todavia, nenhuma forma se revelou até agora verdadeiramente satisfatória para a discriminação e caracterização de tais transtornos. Nem sequer o manual DSM, afinal uma espécie de glossário construído sobre consensos validados estatisticamente, que no fundo traduz a liderança (ou mesmo o poder hegemónico) do pragmatismo norte-americano sobre a Psiquiatria e a Psicologia, e que parte de pressupostos discutíveis, em particular a assunção de que as diferentes entidades de diagnóstico que define possuem uma realidade subjacente natural e universal. \u0000É necessário prosseguir o caminho. Um caminho iniciado por Karl Jaspers, no que diz respeito à via compreensiva (e não apenas descritiva) dos fenómenos em causa. Um caminho que só fará sentido percorrer se se procurar conhecer melhor as realidades naturais que possam existir, quando existam, subjacentes aos transtornos psiquiátricos; procurando ao mesmo tempo reconhecer que partes das definições de tais transtornos são culturalmente definidas e procurando, ainda, articular as diferentes ordens de factores (naturais e sociais) que, juntas, formarão uma nova conceptualização e compreensão de doença e de doença mental. Isto é, procurando por um lado conhecer o funcionamento natural dos mecanismos psicológicos, tais como foram «programados» ou «desenhados» pela evolução da espécie humana; procurando conhecer igualmente as condições ambientais (sociais, culturais, etc.) que fazem disparar tais mecanismos, necessariamente contextuais, de forma disfuncional; e, por fim, incorporando tais conhecimentos nos valores culturais que vêm definindo, ao longo dos séculos e das civilizações, os comportamentos desviantes que se consideram ser doença mental. Tal conceptualização, evolucionista pela sua natureza, poderá vir a trazer enfim uma solução para o problema fundamental de definir critérios de demarcação (entre o que é e o que não é doença mental) que permitam, por sua vez, encontrar explicações adequadas e satisfatórias para a compreensão dos fenómenos psiquiátricos.","PeriodicalId":33971,"journal":{"name":"Estudos do Seculo XX","volume":" ","pages":""},"PeriodicalIF":0.0,"publicationDate":"2018-07-24","publicationTypes":"Journal Article","fieldsOfStudy":null,"isOpenAccess":false,"openAccessPdf":"","citationCount":null,"resultStr":null,"platform":"Semanticscholar","paperid":"46670386","PeriodicalName":null,"FirstCategoryId":null,"ListUrlMain":null,"RegionNum":0,"RegionCategory":"","ArticlePicture":[],"TitleCN":null,"AbstractTextCN":null,"PMCID":"","EPubDate":null,"PubModel":null,"JCR":null,"JCRName":null,"Score":null,"Total":0}
La revistas, periódicos, boletines, etc., elaborados por los pacientes en el interior de los establecimientos psiquiátricos constituyen una fuente histórica, escasamente explorada, que ofrece claves sobre el funcionamiento de las instituciones, sobre la vida cotidiana en su interior y sobre las experiencias de los pacientes y del personal. El objetivo de este artículo es analizar el papel que algunas de estas publicaciones tuvieron en los procesos de cambio asistencial en la España del tardofranquismo y la Transición. Algunas revistas editadas en hospitales psiquiátricos españoles han sido estudiadas parcialmente y por separado. Apoyándose en estos trabajos previos, se intenta una visión de conjunto que permite identificar con claridad dos grandes influencias procedentes de la psicoterapia institucional francesa y del movimiento anti-institucional italiano. Se concluye con una breve reflexión sobre la importancia historiográfica de estas fuentes para el estudio de la historia de la psiquiatría desde el punto de vista del paciente y del activismo en salud mental, tanto profesional como en primera persona.
{"title":"Entre la psicoterapia y la crítica manicomial en la España de la Transición","authors":"R. Huertas","doi":"10.14195/1647-8622_19_1","DOIUrl":"https://doi.org/10.14195/1647-8622_19_1","url":null,"abstract":"La revistas, periódicos, boletines, etc., elaborados por los pacientes en el interior de los establecimientos psiquiátricos constituyen una fuente histórica, escasamente explorada, que ofrece claves sobre el funcionamiento de las instituciones, sobre la vida cotidiana en su interior y sobre las experiencias de los pacientes y del personal. El objetivo de este artículo es analizar el papel que algunas de estas publicaciones tuvieron en los procesos de cambio asistencial en la España del tardofranquismo y la Transición. Algunas revistas editadas en hospitales psiquiátricos españoles han sido estudiadas parcialmente y por separado. Apoyándose en estos trabajos previos, se intenta una visión de conjunto que permite identificar con claridad dos grandes influencias procedentes de la psicoterapia institucional francesa y del movimiento anti-institucional italiano. Se concluye con una breve reflexión sobre la importancia historiográfica de estas fuentes para el estudio de la historia de la psiquiatría desde el punto de vista del paciente y del activismo en salud mental, tanto profesional como en primera persona.","PeriodicalId":33971,"journal":{"name":"Estudos do Seculo XX","volume":" ","pages":""},"PeriodicalIF":0.0,"publicationDate":"2018-07-24","publicationTypes":"Journal Article","fieldsOfStudy":null,"isOpenAccess":false,"openAccessPdf":"","citationCount":null,"resultStr":null,"platform":"Semanticscholar","paperid":"48903918","PeriodicalName":null,"FirstCategoryId":null,"ListUrlMain":null,"RegionNum":0,"RegionCategory":"","ArticlePicture":[],"TitleCN":null,"AbstractTextCN":null,"PMCID":"","EPubDate":null,"PubModel":null,"JCR":null,"JCRName":null,"Score":null,"Total":0}
{"title":"Nota de Abertura","authors":"António Rebelo de Sousa","doi":"10.14195/1647-8622_16_0","DOIUrl":"https://doi.org/10.14195/1647-8622_16_0","url":null,"abstract":"Nota de Abertura","PeriodicalId":33971,"journal":{"name":"Estudos do Seculo XX","volume":"1 1","pages":""},"PeriodicalIF":0.0,"publicationDate":"2018-06-27","publicationTypes":"Journal Article","fieldsOfStudy":null,"isOpenAccess":false,"openAccessPdf":"","citationCount":null,"resultStr":null,"platform":"Semanticscholar","paperid":"66673310","PeriodicalName":null,"FirstCategoryId":null,"ListUrlMain":null,"RegionNum":0,"RegionCategory":"","ArticlePicture":[],"TitleCN":null,"AbstractTextCN":null,"PMCID":"","EPubDate":null,"PubModel":null,"JCR":null,"JCRName":null,"Score":null,"Total":0}
Psychiatry (the old trade of ‘alienism’) is a new discipline. It was constructed during the 19th century under the aegis of medicine. Like all historical events, its foundation was assisted by contemporary assumptions, aspirations and a myth of origin. ‘Psychiatry’ presented itself as a branch of medicine seeking scientifically to explain the causes of objective phenomena and facts called ‘mental diseases’ (and on the basis of such new knowledge) to develop rational cures...
{"title":"The Epistemology of Psychiatry","authors":"G. Berríos, I. Marková","doi":"10.14195/1647-8622_19_4","DOIUrl":"https://doi.org/10.14195/1647-8622_19_4","url":null,"abstract":"Psychiatry (the old trade of ‘alienism’) is a new discipline. It was constructed during the 19th century under the aegis of medicine. Like all historical events, its foundation was assisted by contemporary assumptions, aspirations and a myth of origin. ‘Psychiatry’ presented itself as a branch of medicine seeking scientifically to explain the causes of objective phenomena and facts called ‘mental diseases’ (and on the basis of such new knowledge) to develop rational cures...","PeriodicalId":33971,"journal":{"name":"Estudos do Seculo XX","volume":" ","pages":""},"PeriodicalIF":0.0,"publicationDate":"2018-06-07","publicationTypes":"Journal Article","fieldsOfStudy":null,"isOpenAccess":false,"openAccessPdf":"","citationCount":null,"resultStr":null,"platform":"Semanticscholar","paperid":"42187156","PeriodicalName":null,"FirstCategoryId":null,"ListUrlMain":null,"RegionNum":0,"RegionCategory":"","ArticlePicture":[],"TitleCN":null,"AbstractTextCN":null,"PMCID":"","EPubDate":null,"PubModel":null,"JCR":null,"JCRName":null,"Score":null,"Total":0}
Por ignorância, mas também partindo de uma perspetiva profundamente oligárquica, a modernidade procurou desde o início classificar o seu sistema político entre as democracias, afirmando ter realizado um milagre: que a monarquia simplesmente eletiva seja ao mesmo tempo um sistema representativo e democrático, apesar de não ser nem uma coisa nem outra e que, em todo o caso, estes dois sistemas são incompatíveis entre si. Na democracia, o sistema político pertence à sociedade dos cidadãos, que passa a ser deste modo uma instituição constitutiva da politeia, um demos. Ao mesmo tempo, a sociedade dos cidadãos possui toda a competência política, governa-se a si própria. Nos antípodas, actualmente, o sistema político é detido pelo Estado em geral, incluindo a soberania política. Na democracia, a sociedade é um demos; hoje ela é apenas uma característica (extra-politeia).
{"title":"De la démocratie. Questions de concepts et de méthode","authors":"G. Contogeorgis","doi":"10.14195/1647-8622_17_1","DOIUrl":"https://doi.org/10.14195/1647-8622_17_1","url":null,"abstract":"Por ignorância, mas também partindo de uma perspetiva profundamente oligárquica, a modernidade procurou desde o início classificar o seu sistema político entre as democracias, afirmando ter realizado um milagre: que a monarquia simplesmente eletiva seja ao mesmo tempo um sistema representativo e democrático, apesar de não ser nem uma coisa nem outra e que, em todo o caso, estes dois sistemas são incompatíveis entre si. Na democracia, o sistema político pertence à sociedade dos cidadãos, que passa a ser deste modo uma instituição constitutiva da politeia, um demos. Ao mesmo tempo, a sociedade dos cidadãos possui toda a competência política, governa-se a si própria. Nos antípodas, actualmente, o sistema político é detido pelo Estado em geral, incluindo a soberania política. Na democracia, a sociedade é um demos; hoje ela é apenas uma característica (extra-politeia).","PeriodicalId":33971,"journal":{"name":"Estudos do Seculo XX","volume":"1 1","pages":""},"PeriodicalIF":0.0,"publicationDate":"2018-01-01","publicationTypes":"Journal Article","fieldsOfStudy":null,"isOpenAccess":false,"openAccessPdf":"","citationCount":null,"resultStr":null,"platform":"Semanticscholar","paperid":"66673589","PeriodicalName":null,"FirstCategoryId":null,"ListUrlMain":null,"RegionNum":0,"RegionCategory":"","ArticlePicture":[],"TitleCN":null,"AbstractTextCN":null,"PMCID":"","EPubDate":null,"PubModel":null,"JCR":null,"JCRName":null,"Score":null,"Total":0}
Pub Date : 2018-01-01DOI: 10.14195/1647-8622_17_13
S. Neto
Recensões Críticas
相互批评
{"title":"[Recensão a] ALLIÈS, Paul – Le rêve d’autre chose. Changer la République ou changer de République. Paris: D. Quixote, 2017. 397 p. ISBN 978- 989-708-850-6.","authors":"S. Neto","doi":"10.14195/1647-8622_17_13","DOIUrl":"https://doi.org/10.14195/1647-8622_17_13","url":null,"abstract":"Recensões Críticas","PeriodicalId":33971,"journal":{"name":"Estudos do Seculo XX","volume":"1 1","pages":""},"PeriodicalIF":0.0,"publicationDate":"2018-01-01","publicationTypes":"Journal Article","fieldsOfStudy":null,"isOpenAccess":false,"openAccessPdf":"","citationCount":null,"resultStr":null,"platform":"Semanticscholar","paperid":"66673130","PeriodicalName":null,"FirstCategoryId":null,"ListUrlMain":null,"RegionNum":0,"RegionCategory":"","ArticlePicture":[],"TitleCN":null,"AbstractTextCN":null,"PMCID":"","EPubDate":null,"PubModel":null,"JCR":null,"JCRName":null,"Score":null,"Total":0}
Pub Date : 2018-01-01DOI: 10.14195/1647-8622_17_11
Vera Margarida Coimbra Matos
Nos anos 60 e até ao período de transição democrática em Portugal (1974-1976), as relações diplomáticas entre Roma e Lisboa foram utilizadas pelos partidos italianos como arma de ataque político. Durante o Estado Novo, o Partido Comunista Italiano (PCI) e o Partido Socialista Italiano (PSI) usam-nas para atacar o Partido da Democracia-cristã (PDC), líder das sucessivas alianças governativas de centro-esquerda formadas, desde 1963, entre os partidos do centro e os socialistas. O objetivo era aprofundar a abertura à esquerda. Durante a transição democrática, a possibilidade de o PCI entrar no Governo devido à sua base eleitoral leva o PDC e o PSI a utilizar a radicalização de esquerda da revolução portuguesa para enfraquecer a popularidade dos comunistas, acusando-os de quererem instalar em Itália um regime ditatorial estalinista, tal como o Partido Comunista Português, com o qual mantinham estreitas ligações, fazia em Portugal. Simultaneamente, o PCI recorria aos acontecimentos portugueses para pressionar a Democracia-cristã a aceitar uma aliança governativa com os comunistas, chamada compromisso histórico.
{"title":"3D: Ditadura, Democracia e Diplomacia","authors":"Vera Margarida Coimbra Matos","doi":"10.14195/1647-8622_17_11","DOIUrl":"https://doi.org/10.14195/1647-8622_17_11","url":null,"abstract":"Nos anos 60 e até ao período de transição democrática em Portugal (1974-1976), as relações diplomáticas entre Roma e Lisboa foram utilizadas pelos partidos italianos como arma de ataque político. Durante o Estado Novo, o Partido Comunista Italiano (PCI) e o Partido Socialista Italiano (PSI) usam-nas para atacar o Partido da Democracia-cristã (PDC), líder das sucessivas alianças governativas de centro-esquerda formadas, desde 1963, entre os partidos do centro e os socialistas. O objetivo era aprofundar a abertura à esquerda. Durante a transição democrática, a possibilidade de o PCI entrar no Governo devido à sua base eleitoral leva o PDC e o PSI a utilizar a radicalização de esquerda da revolução portuguesa para enfraquecer a popularidade dos comunistas, acusando-os de quererem instalar em Itália um regime ditatorial estalinista, tal como o Partido Comunista Português, com o qual mantinham estreitas ligações, fazia em Portugal. Simultaneamente, o PCI recorria aos acontecimentos portugueses para pressionar a Democracia-cristã a aceitar uma aliança governativa com os comunistas, chamada compromisso histórico.","PeriodicalId":33971,"journal":{"name":"Estudos do Seculo XX","volume":"1 1","pages":""},"PeriodicalIF":0.0,"publicationDate":"2018-01-01","publicationTypes":"Journal Article","fieldsOfStudy":null,"isOpenAccess":false,"openAccessPdf":"","citationCount":null,"resultStr":null,"platform":"Semanticscholar","paperid":"66673104","PeriodicalName":null,"FirstCategoryId":null,"ListUrlMain":null,"RegionNum":0,"RegionCategory":"","ArticlePicture":[],"TitleCN":null,"AbstractTextCN":null,"PMCID":"","EPubDate":null,"PubModel":null,"JCR":null,"JCRName":null,"Score":null,"Total":0}
Longe de, como habitualmente, reduzir o populismo a uma patologia das democracias liberais contemporâneas , o presente texto procura pensar este mesmo populismo como algo essencialmente ligado ao modo como tais democracias, na sua temporalidade peculiar, se relacionam com o seu passado e o seu futuro. O populismo aparece aqui, nesta perspetiva, como o resultado de um processo em que, nas democracias contemporâneas, emerge um discurso político que traduz um “pensamento único” baseado na ideia de que não há alternativas; que alude à substituição de governos políticos por governos técnicos, reforçando a noção de que as escolhas não são decisões, mas meros resultados automáticos e inevitáveis das circunstâncias; que evoca o consenso e o aniquilamento das distinções políticas alternativas entre esquerda e direita; e que herda a noção, própria do final do século XX, de que as sociedades ocidentais chegaram a um “fim da história” ao encerrar a era das “grandes narrativas”.
{"title":"Right Now","authors":"A. Sá","doi":"10.14195/1647-8622_17_4","DOIUrl":"https://doi.org/10.14195/1647-8622_17_4","url":null,"abstract":"Longe de, como habitualmente, reduzir o populismo a uma patologia das democracias liberais contemporâneas , o presente texto procura pensar este mesmo populismo como algo essencialmente ligado ao modo como tais democracias, na sua temporalidade peculiar, se relacionam com o seu passado e o seu futuro. O populismo aparece aqui, nesta perspetiva, como o resultado de um processo em que, nas democracias contemporâneas, emerge um discurso político que traduz um “pensamento único” baseado na ideia de que não há alternativas; que alude à substituição de governos políticos por governos técnicos, reforçando a noção de que as escolhas não são decisões, mas meros resultados automáticos e inevitáveis das circunstâncias; que evoca o consenso e o aniquilamento das distinções políticas alternativas entre esquerda e direita; e que herda a noção, própria do final do século XX, de que as sociedades ocidentais chegaram a um “fim da história” ao encerrar a era das “grandes narrativas”.","PeriodicalId":33971,"journal":{"name":"Estudos do Seculo XX","volume":"190 1","pages":""},"PeriodicalIF":0.0,"publicationDate":"2018-01-01","publicationTypes":"Journal Article","fieldsOfStudy":null,"isOpenAccess":false,"openAccessPdf":"","citationCount":null,"resultStr":null,"platform":"Semanticscholar","paperid":"66673254","PeriodicalName":null,"FirstCategoryId":null,"ListUrlMain":null,"RegionNum":0,"RegionCategory":"","ArticlePicture":[],"TitleCN":null,"AbstractTextCN":null,"PMCID":"","EPubDate":null,"PubModel":null,"JCR":null,"JCRName":null,"Score":null,"Total":0}
Este artigo tem como objetivo analisar a origem, conceito e dimensões da Justiça de Transição. Partindo do estudo sobre transições políticas, procura compreender como estes condicionam o regime democrático e, consequentemente, a justiça de transição. Distinguem-se três modelos: imposta, rutura e negociada. A partir do pensamento da autora Ruti Tietel, desenvolve-se a historicidade da justiça de transição, que se delimita em três fases. A primeira, iniciada no pós Segunda Guerra Mundial, consubstanciada com o Tribunal de Nuremberga, caracteriza-se como sendo uma justiça de transição no âmbito do direito internacional; a segunda fase corresponde às “redemocratizações" do sul da Europa e da América Latina; por fim, uma última etapa, começada no final do século XX, em que a justiça transicional se reinventa, no contexto da globalização. Adquire diferentes valências, como exemplo o caso argentino. Assim, o conceito atual de justiça de transição não se limita à sua dimensão jurídica, estende-se a diferentes aspetos: reconhecer e valorizar a memória e “verdade, conceder às vítimas as reparações devidas e, por fim, reforma institucional. Em suma, a busca de uma verdadeira “reconciliação" da sociedade, enquanto um todo, respeitando os mais elementares princípios da democracia e direitos humanos.
{"title":"Da Transição Política à Justiça Transicional Contemporânea","authors":"Rui Calado","doi":"10.14195/1647-8622_17_9","DOIUrl":"https://doi.org/10.14195/1647-8622_17_9","url":null,"abstract":"Este artigo tem como objetivo analisar a origem, conceito e dimensões da Justiça de Transição. Partindo do estudo sobre transições políticas, procura compreender como estes condicionam o regime democrático e, consequentemente, a justiça de transição. Distinguem-se três modelos: imposta, rutura e negociada. A partir do pensamento da autora Ruti Tietel, desenvolve-se a historicidade da justiça de transição, que se delimita em três fases. A primeira, iniciada no pós Segunda Guerra Mundial, consubstanciada com o Tribunal de Nuremberga, caracteriza-se como sendo uma justiça de transição no âmbito do direito internacional; a segunda fase corresponde às “redemocratizações\" do sul da Europa e da América Latina; por fim, uma última etapa, começada no final do século XX, em que a justiça transicional se reinventa, no contexto da globalização. Adquire diferentes valências, como exemplo o caso argentino. Assim, o conceito atual de justiça de transição não se limita à sua dimensão jurídica, estende-se a diferentes aspetos: reconhecer e valorizar a memória e “verdade, conceder às vítimas as reparações devidas e, por fim, reforma institucional. Em suma, a busca de uma verdadeira “reconciliação\" da sociedade, enquanto um todo, respeitando os mais elementares princípios da democracia e direitos humanos.","PeriodicalId":33971,"journal":{"name":"Estudos do Seculo XX","volume":" ","pages":""},"PeriodicalIF":0.0,"publicationDate":"2017-10-24","publicationTypes":"Journal Article","fieldsOfStudy":null,"isOpenAccess":false,"openAccessPdf":"","citationCount":null,"resultStr":null,"platform":"Semanticscholar","paperid":"44979874","PeriodicalName":null,"FirstCategoryId":null,"ListUrlMain":null,"RegionNum":0,"RegionCategory":"","ArticlePicture":[],"TitleCN":null,"AbstractTextCN":null,"PMCID":"","EPubDate":null,"PubModel":null,"JCR":null,"JCRName":null,"Score":null,"Total":0}
A Convenção do Património Mundial (1972) é considerada como um dos mais bem-sucedidos instrumentos políticos das histórias, e alguns textos sugerem que o Património Mundial, em si mesmo, tem capacidade para ser um modelo de democratização do património. O propósito deste artigo é verificar essa pretensão, através do seu discurso oficial. Para tal, recorre-se ao que está estabelecido nos seus textos, que acompanham e estabelecem o caráter evolutivo do discurso, pelas dinâmicas geradas pelos resultados da Lista do Património Mundial. Assim, traça-se o perfil evolutivo da sua filosofia concetual e política, presente nas Operational Guidelines. Para além da construção do próprio discurso, refletindo as avaliações sobre os resultados da Lista, também é possível verificar as inf luências dos debates e práticas que foram realizados sobre o tema.
{"title":"Património Mundial","authors":"J. C. Campos, Vitor Murtinho","doi":"10.14195/1647-8622_17_8","DOIUrl":"https://doi.org/10.14195/1647-8622_17_8","url":null,"abstract":"A Convenção do Património Mundial (1972) é considerada como um dos mais bem-sucedidos instrumentos políticos das histórias, e alguns textos sugerem que o Património Mundial, em si mesmo, tem capacidade para ser um modelo de democratização do património. O propósito deste artigo é verificar essa pretensão, através do seu discurso oficial. Para tal, recorre-se ao que está estabelecido nos seus textos, que acompanham e estabelecem o caráter evolutivo do discurso, pelas dinâmicas geradas pelos resultados da Lista do Património Mundial. Assim, traça-se o perfil evolutivo da sua filosofia concetual e política, presente nas Operational Guidelines. Para além da construção do próprio discurso, refletindo as avaliações sobre os resultados da Lista, também é possível verificar as inf luências dos debates e práticas que foram realizados sobre o tema. ","PeriodicalId":33971,"journal":{"name":"Estudos do Seculo XX","volume":" ","pages":""},"PeriodicalIF":0.0,"publicationDate":"2017-10-24","publicationTypes":"Journal Article","fieldsOfStudy":null,"isOpenAccess":false,"openAccessPdf":"","citationCount":null,"resultStr":null,"platform":"Semanticscholar","paperid":"44731353","PeriodicalName":null,"FirstCategoryId":null,"ListUrlMain":null,"RegionNum":0,"RegionCategory":"","ArticlePicture":[],"TitleCN":null,"AbstractTextCN":null,"PMCID":"","EPubDate":null,"PubModel":null,"JCR":null,"JCRName":null,"Score":null,"Total":0}